
Você, que mora em Cuiabá, sente na pele as mudanças no clima. A sensação térmica de 44º C à sombra, a água que sai da torneira cada vez mais cara, as semanas em que a fumaça de incêndios dificulta a respiração são exemplos disso. E todas essas mudanças têm, na política, um endereço em comum.
Dados divulgados pelo Observatório Socioambiental de Mato Grosso apresentam em números o que os municípios do estado têm experimentado nos últimos anos. Desde 2019, mais de 1,25 milhão de hectares de vegetação nativa foram suprimidos, ou seja, menos floresta para gerar a chuva que abastece o rio Cuiabá e umedece o seu quintal.
O primeiro semestre de 2026 teve queda de 37% no desmatamento em relação a 2025, mas isso não resolveu o problema. Grande parte dos alertas de desmate nunca é sequer autuada e, quando isso ocorre, uma soma considerável das multas não é paga porque prescreve ou é perdoada.
O Pantanal deu a prova mais brutal disso. Em 2020, cerca de 40% da porção mato-grossense do bioma queimou. O fogo consumiu quase todo o território do povo Guató e deixou quilombolas, ribeirinhos e pescadores sem roçado, sem peixe, sem água. As terras indígenas vivem sob pressão crescente de grilagem, madeireiras ilegais, garimpo e pastagem. O calor extremo, a seca e o fogo não são "fenômenos da natureza", mas consequências de más decisões políticas.
Os rios Cuiabá e Coxipó são exemplos disso. Pescadores voltaram a registrar a morte de peixes e arraias em Santo Antônio de Leverger por suspeita de contaminação da água. Diante disso, a resposta do poder público tem sido proibir a pesca, como quem diz “Se o peixe está contaminado pare de comer!”. E tudo isso apesar de pesquisadores apontarem que a lei aprovada em 2023 pela ALMT marginaliza o pescador profissional e de estimativas do WWF-Brasil calcularem um custo de até R$ 187 milhões por ano.
Enquanto o cidadão sofre com o calor, a ALMT aprovou, nesta legislatura, ao menos 18 projetos de lei que fragilizam o Código Florestal (CF). O CF é uma lei que deve nos proteger das mudanças do clima, mas, dentre os PLs, as Leis nº 15.190/2025 e nº 15.300/2025, flexibilizaram as exigências do licenciamento ambiental de empreendimentos de potencial impacto. Vale destacar que a Casa de Leis já havia aprovado a "reclassificação" de áreas de floresta amazônica como Cerrado, derrubando de 80% para 35% a Reserva Legal obrigatória nas propriedades rurais.
Na esfera federal, o Marco Temporal travou a demarcação das terras indígenas e o Congresso afrouxou as leis de agrotóxicos e do licenciamento ambiental. Juntas às leis estaduais, essas decisões afetam o bolso, o prato e o copo de quem vive nas cidades. Por isso, a pergunta que devemos fazer aos candidatos não é só "o que você promete?", mas "o que você já fez?". Quem quer se reeleger tem um histórico e quem é estreante precisa responder de onde vem o financiamento da campanha. O calor não é um problema da natureza que ficou maluca, mas uma decisão consciente de quem está pedindo seu voto!
Este artigo de opinião foi originalmente publicado pelo Jornal A Gazeta na edição do dia 2 de outubro de 2026.




